quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

"Um insulto soa tão doce
vindo da sua boca
Uma criança não faria melhor
nem pior que você

Um elogio soa tão pesado
vindo de seus lábios
sensível amargura
na praia de seus olhos

Eu me tranquei em meu quarto
por cinco noites
e tudo o que consegui escrever
foram estas linhas horrorosas

E eu não queria sentir mais nada,
mais nada por você
Não esta noite.
Eu juro.

(Acredite, esta é a primeira vez
em que sou honesto contigo baby)

sábado, 1 de dezembro de 2007

"Minha alma é pequenina
meu coração mais pequenino ainda
e minha cabeça guarda montanhas e montantes
de errantes pensamentos"

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

"Fiz o seu tormento.
Menti, descaradamente
Condenei-te
A um senão
E entreguei
Um coração
Embrulhado
N’um papel
De presente

Mas no final
Quem e disse
Que era meu
O que na verdade
Era seu, somente
O seu coração
Embrulhado
N’um papel
De presente

Diz: sou um cão
Tão sarnento
E porque não
Um ultimo momento
De paixão
Que já passou
E não deixou nada
Que já não fosse
Presente pela falta

É o segredo do amor:
Sair, deixar a marca
P’rá não ser lembrado"

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Toma
este é meu coração
embrulhado em pepel de bala


A festa já passou
e tudo o que sobrou
foram apenas pequenas canções
sobre as mudanças
Mas do inverno ao verão
os refrões são sempre os mesmos...

E o meu coração
Sempre e sempre
congelando e derretendo
Congelando e derretendo...

Toma
este é meu coração
embrulhado em pepel de bala

Um presente
de um garoto descontente
que já não se sente
tão garoto assim
com um copo já no fim
e um cigarro a queimar os lábios...

sábado, 8 de setembro de 2007

Meu coração é um quarto tedioso
em que um monstro se esconde
em baixo da cama

como poderia dividi-lo com alguém?

Meu coração é tão sujo e tão escuro
baratas tomam conta da tristeza
e aqui jogam cartas

como poderia dividi-lo com alguém?

Meu coração é cheio doque não era
e agora já não bate como deveria
nem sei se ainda funciona

como poderia dividi-lo com alguém?

É tão fácil encarar tudo de uma forma positiva
quando o coração esta dentro de uma gaveta
e já não se sente nada alem do que se sentia
Então não venha bater nas minhas costas
sorrir mordendo os dentes e dizer
que tudo isso um dia vai passar

Meu coração, é tão somente meu...

como poderia dividi-lo com alguém?

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O Rastro de Teseu

Se dissesses que foi outra mentira
qual as que, bem sei,
contaste para me proteger,
meu céu ainda teria tua voz,
meus sonhos ainda teriam as tuas mãos
cobrindo meu corpo frio
quando a noite vem...

Mas agora eu sei...
me deixastes na trilha para morrer.

Levaste minhas asas para que
eu não te alcançasse
e para que nunca mais
tivesses que olhar meus braços
frágeis se abrirem ao te ver chegar...


Tão cinza quanto podes retornar
e ser levado ao perder da vista
pra sempre
sem ver que não me deixaste chorar
pra devolver ao mundo o que já
comia meus horizontes
porque não sei como esquecer...
me deixastes na trilha para morrer.


Levaste minhas asas para que
eu não te alcançasse
e para que nunca mais
tivesses que olhar meus braços
frágeis se abrirem ao te ver chegar...


E por anos eu te segui
sem ver que errava
qual tua sombra incerta
a me entorpecer.
Mas hoje sigo meus passos pra trás...
Carrego teu sangue nas veias
mas minhas lágrimas marcam
o caminho enfim à luz do dia...
à luz do dia.

(Nene Altro)

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Bicarbonato de Soda

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir... E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

(Álvaro de Campos)

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A Casa de Asterion

Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei no devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de casa, mas também é verdade que as suas portas (cujo número é infinito) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas femininas nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Por isso mesmo, encontrará uma casa como não há outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra afirmação ridícula é que eu, Asterion, seja um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não existe uma fechadura? Mesmo porque, num entardecer, pisei na rua; se voltei antes da noite, foi pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e iguais, como a mão aberta. O sol já se tinha posto mas o desvalido pranto de um menino e as preces rudes do povo disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, se prosternava; alguns se encarapitavam na estilóbata do templo das Tochas, outros juntavam pedras. Algum deles, creio, se ocultou no mar. Não é em vão que uma rainha foi minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que o queira minha modéstia.
O fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escrita. As enfadonhas e triviais minúcias não encontram espaço em meu espírito, capacitado para o grande; jamais guardei a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.
Claro que não me faltam distrações. Como o carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até cair no chão, estonteado. Oculto-me à sombra duma cisterna ou à volta de um corredor e divirto-me com que me busquem. Há terraços donde me deixo cair, até ensangüentar-me. A qualquer hora posso fazer que estou dormindo, com os olhos cerrados e a respiração contida. (às vezes durmo realmente, às vezes já é outra a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de todos os brinquedos, o que prefiro é o do outro Asterion. Finjo que ele vem visitar-me e que eu lhe mostro a casa. Com grandes referências, lhe digo "Agora voltamos à encruzilhada anterior" ou "Agora desembocamos em outro pátio" ou "Bem dizia eu que te agradaria este pequeno canal" ou "Agora vais ver uma cisterna que se encheu de areia" ou "Já vais ver como o porão se bifurca". Às vezes me engano e rimo-nos os dois, amavelmente.
Não tenho pensado apenas nesses brinquedos; tenho também meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, um pesebre; são catorze (são infinitos) os pesebres, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Todavia, de tanto andar por pátios com uma cisterna e com poeirentas galerias de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo das Tochas e o mar. Não entendi isso até uma visão noturna me revelar que também são catorze (infinitos) os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, catorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: em cima, o intrincado sol; embaixo, Asterion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro.
A cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouço seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para buscá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensangüente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles, na hora da morte, profetizou que um dia vai chegar meu redentor. Desde então a solidão não me magoa, porque sei que meu redentor vive e que por fim me levantará do pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? - me pergunto. Será um touro, ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem? ou será como eu?

O sol da manhã rebrilhou na espada de bronze, já não restava qualquer vestígio de sangue.

- Acreditarás, Ariadne? - disse Teseu. - O minotauro apenas se defendeu.

(Jorge Luis Borges)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Talvez esta seja uma repetição.
(mas como repetir algo que nem começou ainda?).
Não sei, apenas sinto que isso talvez seja uma repetição.
Assim como são todos os meus dizeres desconexos.
Assim como são todas as minhas lamentações.
Repetição. Repetição. Repetição.

...

"Repetir, repetir - até ficar difentente
Repetir é um dom de estilo."
(O Livro das Ignorãças - Manoel de Barros)